A
Acumulação desigual de tempos
Conceito ligado a Milton Santos: o espaço geográfico acumula, em cada lugar, técnicas, objetos e relações sociais de períodos históricos distintos. Diferentes temporalidades coexistem e se sobrepõem, tornando o território um mosaico de “tempos desiguais” que combina heranças do passado com formas do presente.
Milton Santos, Por uma outra globalização. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
NO LIVRO
Uma das passagens de Milton Santos que mais me marcou é a que diz que “o espaço é uma acumulação desigual de tempos”.
Design Global — P. 18
Acumulação por despossessão
Termo de David Harvey que atualiza a “acumulação primitiva” de Marx. Designa a reprodução de capital pela expropriação de bens públicos e comuns — privatizações, cercamentos, financeirização, dívida — transferindo recursos das classes populares ao capital de modo contínuo, não apenas na origem do capitalismo.
David Harvey, O novo imperialismo. Trad. Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
NO LIVRO
O geógrafo britânico David Harvey aponta que o acúmulo de riqueza e a qualidade de vida em metrópoles como Nova York são subprodutos de processos de “acumulação por despossessão” na exploração de cadeias globais de valor.
Design Global — P. 20
Agitação e Propaganda (Agitprop)
Forma de comunicação política que combina intervenção voltada às reivindicações imediatas e à mobilização das massas (agitação) e difusão sistemática da teoria e do programa revolucionário (propaganda). São tarefas com funções complementares: a agitação dirige-se a amplos setores da população por meio de questões concretas, enquanto a propaganda desenvolve uma compreensão mais profunda das causas estruturais da exploração e da luta de classes.
Lênin. O que fazer?: questões candentes de nosso movimento. Trad. Paula Vaz de Almeida. São Paulo: Boitempo, 2020.
NO LIVRO
As centelhas de um outro design possível já existem hoje em toda prática projetual produzida em contextos que escapam da lógica mercantil, como nas brigadas de agitprop partidárias, em escolas livres e projetos de formação política.
Design Crítico — P. 46
Alienação do trabalho
Conceito marxista central: sob o capitalismo, o trabalhador se torna estranho ao produto de seu trabalho e à sua própria atividade criativa. O trabalho, que deveria ser expressão da potência humana, transforma-se em fonte de desumanização. No design, aparece quando o criador perde controle sobre o que e para quem produz.
Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2010.
NO LIVRO
É outra clássica formulação do pensamento marxista: a alienação do trabalho.
Design Prático — P. 163
Alteridade
Conceito filosófico e político que designa a constituição do sujeito em relação ao outro. Em Frantz Fanon, a alteridade refere-se ao processo pelo qual o colonialismo produz e fixa o colonizado como “outro” inferior, estranho e desumanizado. Ao colocar o europeu como sujeito universal genérico, o colonialismo europeu hierarquizou a diferença e construiu relações de poder racializadas.
Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas. Trad. de Raquel Camargo e Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu, 2020.
NO LIVRO
Ao lado da tendência em direção à homogeneização global, há também uma fascinação com a diferen��a e com a mercantilizaç��������������������o da etnia e da “alteridade”.
Design Negro — P. 139
Autofetichização
Processo pelo qual o trabalhador criativo — sobretudo o freelancer — estetiza sua própria força de trabalho, construindo uma “marca pessoal” que oculta as relações de exploração. A vida inteira se torna portfólio: o sujeito se torna mercadoria de si mesmo, vendendo experiência, identidade e estilo como diferenciais competitivos.
Iraldo Matias, Projeto e revolução: Do fetichismo à gestão. Florianópolis: Editoria Em Debate/UFSC, 2014.
NO LIVRO
É o que podemos chamar de autofetichização: a estetização da própria força de trabalho, ocultando as relações sociais de exploração por trás de uma imagem sedutora e aparentemente autônoma.
Design Crítico — P. 39
B
Boom das commodities
Período de forte expansão econômica na América Latina (anos 2000–2010) impulsionado pela alta demanda internacional por produtos primários — soja, minério, petróleo. Gerou crescimento e consumo, mas aprofundou a dependência exportadora e a desindustrialização, fragilizando o setor criativo quando os preços caíram.
J. Carvalho Brandão e C. Moura Vogt, Os efeitos macroeconômicos do superciclo de commodities e a influência da China na economia brasileira. Revista Tempo do Mundo, n. 24, pp. 283-318, dez. 2020.
NO LIVRO
Investigar um percurso profissional que vai do “boom das commodities” ao trabalho remoto transnacional, busca ir além do mero relato biográfico.
Design Global — P. 13
C
Clóvis Moura
Sociólogo e militante comunista brasileiro (1925–2003) que analisou o negro como sujeito ativo da história, e não como objeto passivo da escravização. Demonstrou que a concepção moderna de raça é uma construção social forjada no colonialismo e que a imprensa negra produziu uma “linguagem alternativa” frente à cultura dominante.
Clóvis Moura, Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988.
NO LIVRO
Com a montagem do antigo sistema colonial e a expansão das metrópoles colonizadoras, esse racismo se desenvolveu como arma justificadora da invasão e domínio das áreas consideradas inferiores.
Design Negro — P. 124
Cooperativismo de plataforma
Modelo que propõe transformar plataformas digitais em cooperativas de trabalhadores, substituindo a lógica extrativista das big techs pela propriedade coletiva e gestão democrática. Contrapõe-se à uberização: em vez de maximizar lucro para acionistas, distribui excedente e poder de decisão entre quem de fato produz.
Rafael Grohmann e Julice Salvagni, Trabalho por plataformas digitais: Do aprofundamento da precarização à busca por alternativas democráticas. São Paulo: Sesc São Paulo, 2023.
NO LIVRO
Foram propostas alternativas concretas, como experiências de cooperativismo de plataforma e políticas públicas de regulação.
Design Crítico — P. 40
D
Design capitalism
Conceito de Anselm Jappe para descrever o estágio do capitalismo em que o design — a produção de formas, aparências e experiências — substitui a produção industrial como motor de valor. O capitalismo se torna design capitalism quando a estética da mercadoria passa a dominar toda a esfera do consumo.
Anselm Jappe, “Design, the Ultimate Stage of Capitalism?”. Never for Money, Always for Love. Luxemburgo: Musée d’Art Moderne Grand-Duc Jean, 2014.
NO LIVRO
Jappe cunhou o termo design capitalism para descrever como o design se torna o estágio final do capitalismo.
Design Crítico — P. 44
Desmaterialização do design
Deslocamento do campo do design do objeto físico para serviços, interfaces e experiências imateriais. Silvio Lorusso analisa como essa passagem acompanha transformações no capitalismo: o designer passa a vender não produtos, mas soluções e identidades — formas sem substância, cada vez mais atreladas à lógica da plataforma.
Silvio Lorusso, “What Design Can’t Do — Graphic Design between Automation, Relativism, Élite and Cognitariat”. Entreprecariat, 27 fev. 2017.
NO LIVRO
É o que Silvio Lorusso chama de “desmaterialização do design” ao analisar esse novo momento das formas de reprodução do capital.
Design Crítico — P. 38
Desvio existencial
Em Frantz Fanon, o processo pelo qual o colonizado internaliza a visão degradada que o colonizador projeta sobre ele. O racismo não apenas oprime externamente: cria uma ferida psíquica, uma cisão interior entre o ser real e a imagem imposta, que nenhuma política de diversidade corporativa é capaz de reparar.
Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas. Trad. de Raquel Camargo e Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu, 2020.
NO LIVRO
O “desvio existencial” em Fanon, a autorrejeição em Neusa Santos Souza e o “emparedamento” em Juliano Baltazar Pereira não podem ser corrigidos por nenhum departamento de recursos humanos ou consultorias de diversidade.
Design Negro — P. 131
E
Elogio da lentidão
Conceito de Milton Santos que propõe a lentidão como resistência política à racionalidade capitalista. Contra a aceleração dos fluxos globais, que serve ao capital e desorganiza a vida urbana popular, Santos valoriza os ritmos lentos do território e do cotidiano como espaços de criatividade orgânica e autonomia.
Milton Santos, “Elogio da lentidão”. Folha de S.Paulo, 11 mar. 2001. Caderno Mais!
NO LIVRO
Ele propõe o “Elogio da lentidão” como uma ferramenta de resistência política.
Design Global — P. 27
Emparedamento
Metáfora para descrever a condição de quem ascende socialmente mas se vê preso entre dois mundos: a identidade forjada na condição de origem e a nova posição conquistada. Sem pertencer plenamente a nenhum dos dois lados, o sujeito experimenta uma angústia de enclausuramento que a conquista individual não resolve.
Juliano Baltazar Pereira, “Sente o negro drama”: Emparedamento, uma expressão subjetiva do racismo. PUC-SP, São Paulo, 2025. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica).
NO LIVRO
“Emparedamento”: uma sensação de estar preso entre a ascensão social recém-alcançada e a identidade forjada na experiência anterior de classe e raça.
Design Negro — P. 131
Essencialismo negro
Perspectiva que concebe a negritude como uma identidade dotada de conteúdo político, cultural ou histórico intrínseco e relativamente estável. Criticada por autores como Asad Haider e Dennis de Oliveira, essa visão tende a naturalizar categorias produzidas historicamente pelo racismo, substituindo a análise das estruturas de dominação pela afirmação da identidade.
Asad Haider, Armadilhas da identidade: Raça e classe nos movimentos por justiça social. São Paulo: Veneta, 2019.; Dennis de Oliveira, Racismo estrutural: Uma perspectiva histórica. São Paulo: Dandara, 2021.
NO LIVRO
O essencialismo negro é definido como uma concepção limitada de antirracismo por se basear em uma identidade fixa que se fecha em si mesma.
Design Negro — P. 134
Estética da Mercadoria
Conceito de W. F. Haug sobre a dimensão sensível da mercadoria: sua aparência, embalagem e design como promessa de valor de uso. Para além do ornamento, é a forma pela qual o capital se realiza, pois a compra é mediada pela sedução da aparência antes de qualquer experiência real do produto.
Pedro Henrique Lopes Ribeiro, Gênese e Estrutura da Estética da Mercadoria. Dissertação de mestrado. UEMG, 2018. Citado em Bessa.
NO LIVRO
Ao eliminar o vendedor como mediador da troca, transfere-se para o próprio corpo da mercadoria a responsabilidade de se identificar, se diferenciar e se vender; o design passa a ser a voz do produto — isso é a estética da mercadoria.
Design Prático — P. 160
F
Fetichismo da mercadoria
Conceito marxista: sob o capitalismo, as relações sociais entre pessoas aparecem como relações entre coisas. O produto do trabalho humano adquire uma existência autônoma e misteriosa, ocultando a exploração que o produziu. No design, opera quando a forma estetizada encobre as condições materiais de sua produção.
Karl Marx, O capital: crítica da economia política: livro I. Trad. Rubens Enderle. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2023.
NO LIVRO
É por isso que categorias como alienação, fetichismo da mercadoria e mais-valia não precisam ser abandonadas, e sim aplicadas com método.
Design Prático — P. 171
Financeirização
Processo pelo qual o capital financeiro passa a dominar a economia global em detrimento da produção. A financeirização reorganiza cidades (via especulação imobiliária), empresas (via acionistas) e trabalho (via métricas de rentabilidade), impondo uma lógica de extração de valor que prescinde da produção concreta.
Ladislau Dowbor, A era do capital improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
NO LIVRO
O crescimento do mercado de imóveis de luxo e a financeirização da moradia reforçaram a segregação social.
Design Crítico — P. 37
First Things First
Manifesto publicado em 1964 por Ken Garland em colaboração com outros 21 signatários, e reeditado em 2000 por uma nova geração de designers. O texto defende que o design priorize demandas sociais, culturais e educacionais em vez de servir predominantemente à publicidade e ao consumo.
Ken Garland et al., First Things First (1964); First Things First 2000 (1999).
NO LIVRO
Nos anos 1960, o manifesto First Things First — e suas revisões posteriores — também tensionam o papel do designer frente às demandas do mercado.
Design Crítico — P. 34
Frantz Fanon
Psiquiatra nascido na Martinica (1925–1961) e engajado na revolução argelina, autor de uma análise pioneira dos efeitos subjetivos do racismo e do colonialismo. Suas formulações sobre o “desvio existencial” e a cisão da personalidade do colonizado ajudam a explicar o deslocamento que designers negros sentem em ambientes profissionais regidos por referências brancas.
Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas. Trad. de Raquel Camargo e Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu, 2020.
NO LIVRO
Foi a partir do meu encontro com a obra de Frantz Fanon, em 2013, que esse processo de tomada de consciência ganhou mais densidade e direção.
Design Negro — P. 138
M
Maniqueísmo delirante
Em Fanon, a divisão colonial do mundo em dois polos radicalmente opostos — o bem e o mal, o civilizado e o selvagem. Esse maniqueísmo não é apenas ideológico: é estrutural, espacial e psíquico, produzindo uma cisão que penetra a subjetividade dos oprimidos e organiza toda a lógica da dominação colonial.
Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas. Trad. de Raquel Camargo e Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu, 2020.
NO LIVRO
Fanon toma dos psiquiatras franceses Maurice Dide e Paul Guiraud a expressão “maniqueísmo delirante” para descrever a cisão do mundo social em polos morais opostos.
Design Negro — P. 139
Materialismo histórico
Método marxista que analisa a realidade como um processo histórico marcado por contradições materiais e conflitos sociais. Compreende ideias, instituições e culturas como expressões de relações concretas de produção e poder. No design, investiga as condições sociais que produzem as formas.
MARX, Karl. Para a crítica da economia política (1859), Prefácio.
NO LIVRO
Devemos abraçar o materialismo histórico como um método para compreender melhor como o capitalismo governa por meio da hierarquia e da diferença.
Design Negro — P. 152
Messianismo tecnológico
Crença de que a tecnologia, por si mesma e sem transformação das relações sociais, resolverá os problemas humanos. Herdeiro da tradição moderna do progresso técnico, ignora que as ferramentas não são neutras: elas refletem e reproduzem as relações de poder e os interesses econômicos que as criaram.
Rafael Cardoso, autor de Design para um mundo complexo, em entrevista para o site da editora Ubu em 2017.
NO LIVRO
A matriz alemã é também a raiz de fenômenos como o que o historiador Rafael Cardoso chamou de messianismo tecnológico.
Design Crítico — P. 35
Modernização da dependência
Na teoria marxista da dependência, a modernização periférica não rompe com o subdesenvolvimento — ao contrário, o reproduz em novas bases. Cada ciclo de industrialização na América Latina mantém a transferência de valor para os países centrais, atualizando a dependência com tecnologia importada e desindustrialização futura.
Ricardo Antunes, O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
NO LIVRO
Desenvolvimento e subdesenvolvimento são processos interdependentes: a riqueza do centro global se sustenta na modernização da dependência.
Design Global — P. 14
N
Nação ativa / Nação passiva
Distinção de Milton Santos entre duas nações coexistentes no mesmo território: a “ativa”, integrada ao capitalismo global, acelerada e formal; e a “passiva”, periférica, lenta e enraizada localmente. Santos inverte a hierarquia: a nação passiva possui dinamismo orgânico e potencial de resistência.
Milton Santos, Por uma outra globalização. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. pp. 154–158.
NO LIVRO
Santos também reconhece a riqueza dessa nação passiva, dotada de “um dinamismo próprio, autêntico, fundado em sua própria existência”.
Design Global — P. 16
Neoextrativismo
Modelo econômico baseado na apropriação de recursos naturais, em redes produtivas pouco diversificadas e na inserção subordinada na nova divisão internacional do trabalho. Reconhecido como um padrão contemporâneo de acumulação de capital predominante na América Latina.
SANTOS, Rodrigo Salles Pereira dos; MILANEZ, Bruno. Neoextrativismo no Brasil? Atualizando a análise da proposta do novo marco legal da mineração. 2014.
NO LIVRO
O fenômeno é uma espécie de neoextrativismo, análogo àquele observado nos setores primários, como a agropecuária ou a mineração.
Design Global — P. 24
Négritude
Movimento literário, artístico e político formulado nos anos 1930 por Aimé Césaire, Léopold Senghor e Léon Damas, em Paris. Valorizou as culturas negras por meio da arte e da estética, difundido por redes como a revista Présence Africaine. Rejeitou a assimilação colonial e afirmou a identidade e a história africanas.
Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, via Présence Africaine, 1947.
NO LIVRO
Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, membros do movimento Négritude, defendiam a “reabilitação da raça negra” a partir da estética.
Design Negro — P. 135
Neoliberalismo progressista
Conceito de Nancy Fraser para nomear a aliança entre agenda neoliberal e pautas identitárias progressistas. Combina liberalização econômica com reconhecimento simbólico de minorias, sem questionar a desigualdade estrutural.
Nancy Fraser, “Do neoliberalismo progressista a Trump — e além”. Revista Política e Sociedade, v. 17, n. 40, 2018.
NO LIVRO
A filósofa estadunidense Nancy Fraser chama de neoliberalismo progressista o momento em que temas como “representatividade” e “empoderamento” passaram a dominar o debate.
Design Negro — P. 127
P
Particularismo romântico
Tendência a celebrar acriticamente culturas e saberes subalternos como autênticos e intocáveis, sem situá-los em suas contradições históricas. Criticado como romantismo político que imobiliza: ao fetichizar a diferença, impede a transformação das condições materiais e bloqueia alianças para disputar o universal.
Ruth Wilson Gilmore via Kevin Ochieng Okoth, África vermelha: Resgatando a política negra revolucionária. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2025.
NO LIVRO
Kevin Ochieng Okoth resgata o conceito de “particularismo romântico” da abolicionista penal Ruth Wilson Gilmore: a “tendência a celebrar acriticamente a autenticidade essencial de epistemologias e culturas que foram suprimidas pelo colonialismo e pelo imperialismo”.
Design Negro — P. 137
Pejotização
Prática de contratar trabalhadores como pessoas jurídicas (PJ) para eliminar direitos trabalhistas. No design, generalizou-se como modelo dominante: o profissional é forçado a abrir empresa, assumir encargos e riscos próprios, enquanto a empresa contratante elimina o vínculo empregatício e transfere custos.
Rafael Bessa, Design: Global Crítico Negro Prático.
NO LIVRO
A pejotização nos estúdios locais e o aumento da demanda por projetos freelancer vindos de agências digitais sediadas em São Paulo.
Design Global — P. 19
Política de identidade
Formas de organização política baseadas em identidades compartilhadas — raça, gênero, sexualidade. Legítimas em sua origem, foram reconfiguradas pelo neoliberalismo em demandas de representação individual, desconectando a luta identitária da transformação das relações de classe e da economia política mais ampla.
Asad Haider, Armadilhas da identidade: Raça e classe nos movimentos por justiça social. São Paulo: Veneta, 2019.
NO LIVRO
O teórico político estadunidense Asad Haider observou como as políticas de identidade, originalmente uma luta legítima contra as opressões, foram reconfiguradas pelo neoliberalismo em uma demanda restrita à diversificação das elites.
Design Negro — P. 128
Pós-modernidade / Pós-modernismo
Condição cultural e estética correspondente ao estágio neoliberal e globalizado do capitalismo. Caracteriza-se pela fragmentação, pela saturação de imagens e signos e pela perda de referências históricas. No design, manifesta-se na lógica das plataformas de inspiração visual e numa estética “subversiva” facilmente cooptada pelo mercado, deslocando a crítica das condições materiais para a superfície das formas.
Fredric Jameson, Pós-modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1997.
NO LIVRO
Fredric Jameson entende o pós-modernismo como “a lógica cultural do capitalismo tardio”, isto é, a forma estética correspondente ao estágio neoliberal e globalizado do capital.
Design Negro — P. 148
Promessa de Valor de Uso
Na teoria de W. F. Haug, calcada no duplo caráter da mercadoria (valor de uso e valor de troca), o design produz a promessa do que ela poderá proporcionar. A compra não se baseia no uso real, mas na antecipação sensível desse uso. O design opera precisamente nesse intervalo: entre a mercadoria como ela é e como ela parece poder ser.
W. F. Haug, Crítica da estética da mercadoria. Citado em Bessa.
NO LIVRO
Nos termos de W. F. Haug: o design é a promessa do valor de uso da mercadoria.
Design Prático — P. 158
R
Racismo científico
Conjunto de teorias pseudocientíficas do século XIX e XX que invocaram biologia e genética para justificar hierarquias raciais. Surgiu como instrumento ideológico do colonialismo e da escravização, legitimando a dominação com a autoridade da ciência. Seus resquícios persistem no imaginário social e nas instituições.
Clóvis Moura, “O racismo como arma ideológica de dominação”. Revista Princípios, n. 34, ago./out. 1994.
NO LIVRO
O racismo moderno se apresenta como corrente “científica”, invocando argumentos pseudocientíficos para justificar a dominação de um povo sobre outro.
Design Negro — P. 136
S
Sinalização de virtude
Prática de expressar publicamente valores morais com objetivo principal de construir imagem — não de transformar a realidade. No design e na comunicação ativista, aparece quando a produção visual substitui o engajamento coletivo: o cartaz e o post tornam-se fins em si mesmos, performando posição sem ação.
Rafael Bessa, Design: Global Crítico Negro Prático.
NO LIVRO
Até que ponto essas manifestações não operam mais como uma forma de sinalização de virtude, com autores, documentaristas e filantropos claramente se elevando sobre os vendedores de cerveja?
Design Prático — P. 160
Síntese estética
Forma visual que condensa múltiplas determinações históricas, sociais e culturais em uma unidade concreta. Não resulta da simples soma de influências, mas da elaboração de contradições e mediações que expressam, no plano sensível, as relações materiais e simbólicas de uma determinada realidade.
MARX, Karl. Introdução à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular.
NO LIVRO
Os materiais produzidos pelo artista e museólogo negro Emanoel Araujo demonstram uma síntese estética entre o modernismo gráfico internacional e referências culturais afrodiaspóricas.
Design Negro — P. 154
Sociedade abigarrada
Conceito do sociólogo boliviano René Zavaleta Mercado para descrever formações sociais latino-americanas onde coexistem, sem síntese, m����ltiplos modos de produção, temporalidades e culturas. Diferente da noção europeia de sociedade homogênea, a sociedade abigarrada é constitutivamente plural e irredutível.
René Zavaleta Mercado; Luis Tapia, Dialéctica del colonialismo interno.
NO LIVRO
Essa frase também se conecta à concepção de sociedade abigarrada, criada pelo sociólogo boliviano René Zavaleta Mercado.
Design Global — P. 18
Superexploração da força de trabalho
Conceito de Ruy Mauro Marini: nos países periféricos, a exploração da força de trabalho ultrapassa a norma capitalista — os salários ficam abaixo do necessário para a reprodução do trabalhador. É o mecanismo que permite a transferência sistemática de valor para os países centrais sem equivalência na troca.
Ruy Mauro Marini, Dialética da dependência. Petrópolis: Vozes, 1973.
NO LIVRO
A condição de prestação de serviços fragmentada, marcada pela superexploração da força de trabalho e pela transferência sistemática de valor para os países centrais.
Design Global — P. 14
T
Temporalidades divergentes
Em Milton Santos, a coexistência no mesmo território de múltiplos regimes temporais produzidos pela desigualdade: o tempo da velocidade global e dos mercados financeiros, ao lado do tempo lento da informalidade e da subsistência. Essa divergência cria sujeitos divididos e espaços urbanos fraturados por dentro.
Milton Santos, Por uma outra globalização. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 124.
NO LIVRO
A posição do profissional de design nessa cadeia coloca-o em uma dualidade social, em um processo que o geógrafo brasileiro Milton Santos chamou de “temporalidades divergentes”.
Design Global — P. 15
Teoria Marxista da Dependência
Escola de pensamento latino-americana (Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra, Theotônio dos Santos) que interpreta o subdesenvolvimento não como atraso, mas como resultado estrutural da inserção subordinada na economia capitalista global. A dependência é uma forma específica de desenvolvimento desigual e funcional.
Ruy Mauro Marini, Dialética da dependência. Petrópolis: Vozes, 1973.
NO LIVRO
O livro propõe analisar o design brasileiro a partir de ciclos de ascensão, crise e reconfiguração da dependência econômica, tomando como eixos a Teoria Marxista da Dependência e a geografia crítica.
Design Global — P. 12
Toyotismo
Modelo de organização da produção surgido no Japão do pós-guerra, baseado na flexibilização e na lógica do just-in-time: produzir e receber apenas o necessário, no momento necessário. Sucede a rigidez do fordismo e molda o trabalhador criativo contemporâneo ao explorar sua bagagem subjetiva no processo produtivo.
David Harvey, A condição pós-moderna: Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Trad. de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Loyola, 1992.
NO LIVRO
Quando um designer brasileiro atua como protagonista em projetos internacionais a partir de filiais locais, ele continua sendo um trabalhador just-in-time, cuja função é garantir a fluidez da acumulação global.
Design Global — P. 42
Troca desigual
Mecanismo pelo qual países periféricos transferem valor para países centrais via comércio internacional: produtos com alta composição de trabalho e baixo salário são trocados por produtos de maior valor agregado. A “livre concorrência” no mercado mundial oculta essa assimetria que perpetua a dependência.
Ruy Mauro Marini, Dialética da dependência. Petrópolis: Vozes, 1973.
NO LIVRO
A máxima da chamada troca desigual: quando bens e serviços produzidos em diferentes condições de produtividade e taxas de exploração são trocados no mercado mundial.
Design Global — P. 23
U
Uberização
Modelo de organização do trabalho baseado em plataformas digitais que transformam trabalhadores em “parceiros autônomos”, eliminando vínculos empregatícios e direitos trabalhistas. No design, aparece na proliferação de freelancers e na competição por projetos em plataformas globais de baixo custo.
Virgínia Fontes, Capitalismo em tempos de uberização: Do emprego ao trabalho. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz, 2017.
NO LIVRO
Para os designers, o resultado foi a intensificação de tendências já em curso: informalização, pejotização, “uberização” e expansão do trabalho intermitente.
Design Crítico — P. 39
V
Virada gestorial
Processo pelo qual o designer abandona a dimensão técnica e poética do projeto para assumir funções de gestão, estratégia e facilitação. O design deixa de produzir formas para coordenar processos — uma transformação que, segundo Iraldo Matias, responde ao capitalismo de serviços e reposiciona o designer como consultor.
Iraldo Matias, Projeto e revolução: Do fetichismo à gestão. Florianópolis: Editoria Em Debate/UFSC, 2014.
NO LIVRO
É esse processo que o designer e pesquisador brasileiro Iraldo Matias chama de virada gestorial.
Design Crítico — P. 35
Z
Zonas luminosas / Zonas opacas
Metáfora de Milton Santos para a desigualdade territorial: as “zonas luminosas” são os espaços integrados à racionalidade técnica global — cidades conectadas, mercados formais. As “zonas opacas” são os espaços do informal e da criatividade que escapa ao controle do capital e à modernização.
Milton Santos, Por uma outra globalização. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
NO LIVRO
Santos diferencia as zonas “luminosas” da exatidão técnica das zonas “opacas”, onde o espaço é do aproximativo e da criatividade, oposto à mecânica rotineira do objeto técnico.
Design Global — P. 27